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Durante a entrevista, a actriz revelou que está a trabalhar num novo disco
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Mariah Carey: “Eu já passei por muitas coisas que me fortaleceram”
07-02-2010

É difícil reconhece-la no filme ‘Precious - Based on the novel Push by Saphire', pois está ausente qualquer pinga de ‘glamour' na assistente social morena que lida com o caso dramático da jovem menor, vítima de violência familiar que acompanha o bebé fruto das repetidas violações do pai. Já na entrevista, transformou-se na estrela elegante e produzida que estamos habituados a ver. Tal como quando canta, a tonalidade profunda da voz continua a encantar...

- Como uma grande estrela que é, não receou expor-se demasiado num filme em que interpreta uma personagem sem ‘glamour'?

- De modo nenhum. Pelo contrário. Sou uma grande amiga do Lee Daniels e adorei o livro da Saphire. Mudou completamente a minha vida quando o li há bastante tempo. Por isso, quando me pediu para fazer um pequeno papel não pude recusar. E não me parece que seja um trabalho arriscado, pois não sou a estrela do filme, apenas uma actriz secundária. Considero, isso sim, que se tratou de uma experiência libertadora.

- O que mais a atraiu neste papel?

- Foi a possibilidade de participar em conjunto numa peça criativa. Isso foi algo que me atraiu bastante, sobretudo por ser a adaptação desse livro. O trabalho foi fantástico, mas difícil. Deixei de lado todo o ‘glamour' e aproximei-me da personagem com vontade de servir a história enquanto actriz.

- Devo dizer que tive de confirmar várias vezes se era mesmo a Mariah que interpretava aquela personagem, pois está irreconhecível... Sentiu-se bem com essa transformação radical?

- É verdade (risos). Muita gente não me reconheceu, o que me deixa feliz. Senti-me bem porque sabia que o Lee pretendia que a minha imagem não se impusesse. Isso não faria sentido. Ele queria uma transformação total e não apenas deixar de usar maquilhagem e ousar um penteado diferente. Ele queria uma mudança no andar, numa maneira de falar mais pausada e também numa ligeira alteração do sotaque. Foi mais uma forma de retirar máscaras do que propriamente colocar outra.

- Gostei muito também da calma que emana da personagem... Digamos que era a voz mais acalma no meio de uma grande drama social...

- Esse foi um aspecto que trabalhei bastante, porque a personagem na posição dela iria ter experiências tão radicais que teria de ter essa fibra para não se ir abaixo. Outras pessoas entravam ali com histórias semelhantes à de Precious que fora abusada por membros da sua família ou os abusos de droga. Como assistente social, ela tinha de ter essa fibra. Era importante, sobretudo para lidar com a mãe dela. A Mo'Nique (nomeada para Globo de Ouro) tem um papel de uma imensa força e que tinha de tentar estar à altura dela. Esse foi o meu desafio.

- Este tipo de experiência poderá atraí-la para outros média, como a realização, pois já dirigiu clips musicais?

- É divertido fazer vídeos musicais porque não são muito difíceis de fazer. Isto apesar de se poder fazer o que quisermos. Mas fazer um filme é um desafio completamente diferente. Por exemplo, o filme do Lee é completamente diferente de um vídeo musical. O Brett Ratner, que é meu amigo, já fez alguns filmes e também vídeos, mas quando viu este filme quebrou todas as barreiras da Mariah. Foram as luzes naturais, os ângulos de câmara inesperados. Para além disso, ainda fizemos fazer uma pequena prótese no nariz... Ainda por cima, como tenho a pele muito fina, começou a agarrar-se... (risos) A verdade é que eu tinha de perder toda a ‘persona' da Mariah Carey para a miss Weiss. Mas acabou por ter um efeito no meu aspecto, que era o que o Lee queria.

- A última cena com a Monique é arrasadora. Como foi que se preparou para ela?

- É realmente intensa. Até porque tanto eu como a Gabourey Sidibe (actriz estreante que faz de Precious) gostamos muito dela. Mas no final tinha de evitar estar com ela para manter aquele estado de pressão que vivemos todas as três. No final, abraçámo-nos as três e chorámos.

- Este é um filme que lida com as dúvidas da existência humana e como evoluímos enquanto seres vivos. Que tipo de experiência teve na sua vida que a tornou mais forte?

- Eu já passei por muitas coisas que me fortaleceram. Não é verdade que aquilo que não nos mata, acaba por fortalecer-nos? Eu já passei por isso algumas vezes. Mas se como artista me conseguir despir da minha personalidade e ser aquela pessoa muito segura que o Lee queria, isso só me poderá fortalecer. Estou agora a trabalhar num novo disco e acho também que isso me ajuda a dissecar a música.

- Já foi há dez anos que a vimos em, ‘Glitter'. Ficou abalada pelo fracasso desse filme? O que aprendeu entretanto acerca desta indústria?

- Aprendi muito. Vou dizer uma coisa que muita gente não sabe: esse filme estreou no dia 1 de Setembro de 2001. Poderia existir um dia pior para estrear esse filme? Eu acho que não. Acho até que muita gente que fala mal do filme nem o viu. Acho que não foi o melhor que já fiz, nem o pior. Se pudesse voltar a atrás e não o fazer? Sim, voltaria e não o faria. Mas nessa altura eu queria fazer filmes mais independentes. ‘Glitter' foi uma boa experiência, embora não a repetiria. Ainda bem que o Lee me deu esta oportunidade de fazer este filme, pois era este tipo de cinema que eu queria e quero fazer.

- Pelo facto de ser cantora e actriz, considera que existem elementos comuns à preparação de um disco ou de um filme?

- Eu consigo estar atrás do microfone e ser eu própria, ao passo que, como actriz, tenho necessidade de ser menos eu própria.

- Apesar de ser muito jovem em 1987 - a altura em que decorre a acção de ´Precious' - que recordações guarda da Harlem nessa altura?

- Parte da minha família, do lado do meu pai, viveu em Harlem, antes de se mudarem para Brooklyn. Alguns membros da família do meu pai eram até delinquentes. Isso foi algo que eu soube algum tempo mais tarde, pois não éramos autorizados a falar neles. A minha família é inter-racial, o meu pai era negro e a minha mãe branca. Sempre fui uma ‘outsider'. Eu relaciono-me com esse lado de Harlem porque tinha família. E ouvia também muito ‘hip-hop' na rádio.

- De onde lhe vem esse desejo de representar?

- Vem do desejo de exprimir uma outra faceta criativa. Escrever canções e cantar é um lado, mas este também passa a fazer parte de mim. E até porque considero que seja esta a primeira vez.

Paulo Portugal
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